quinta-feira, 19 de abril de 2012

Dicionário dos Alimentos - TREMOÇO


Tremoço, um campeão de consumo em todas as esplanadas. É interessante descobrir que o actual “marisco dos pobres”, foi outrora alimento indispensável nas mesas mais abastadas e simbolizava o dinheiro nas antigas comédias romanas.

Continuando na senda histórica, as propriedades nutricionais do tremoço são explicáveis à luz do desespero de Maria, mãe de Jesus, que quando fugia das tropas de Herodes, perante o barulho denunciador causado pelo tremoço dentro da vagem, lhes rogou a maldição de que o fruto daquele tremoceiro não mataria a fome a ninguém por mais que o comessem.

De facto, o tremoço, à semelhança de outras leguminosas, é muito pouco calórico (um pires possui cerca de 70 kcal), no entanto no que diz respeito ao seu efeito na saciedade a conversa já é outra pois o tremoço possui 17 por cento de proteínas e cinco por cento de fibra, os nutrimentos com maior contribuição a este nível.

Apesar de ser um alimento de origem vegetal, as proteínas do tremoço são de elevada qualidade e digestibilidade com um perfil semelhante à proteína da soja, sendo que a sua combinação com cereais consegue aportar à nossa alimentação todos os aminoácidos essenciais.

Para além deste perfil adequado, existe igualmente uma proteína específica do tremoço que possui propriedades fungicidas e não tem toxicidade para a espécie humana. Esta descoberta efectuada no nosso país abre portas à sua utilização na agricultura biológica, estufas, campos de golfe, entre outros.

Voltando às propriedades nutricionais, o tremoço é muito pobre em gordura e a pouca existente é maioritariamente mono e polinsaturada. Relativamente à sua composição vitamínica e mineral, destacam-se no tremoço quantidades substanciais de ácido fólico, ferro e zinco, sendo que estes dois últimos não abundam em alimentos de origem vegetal. O ponto mais negativo relativo ao tremoço é a excessiva quantidade de sódio que não está presente naturalmente no alimento, mas decorre do sal adicionado depois da cozedura.

Em suma, o tremoço é um excelente alimento de Verão, pouco calórico, altamente saciante e com efeitos benéficos ao nível do funcionamento intestinal, controlo glicémico e diminuição do colesterol. Ainda persiste a ideia que é alimento de pobre?

Pedro Carvalho, nutricionista
Professor Assistente Convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~


O tremoço é uma leguminosa da mesma família da ervilha e da fava e bastante rico nutricionalmente: possui três vezes mais proteínas e duas vezes mais fósforo do que o leite de vaca, uma quantidade elevada de cálcio, vitaminas E e do complexo B, fósforo, potássio, ácidos gordos insaturados (ómega 3 e 6), ferro e fibras. Em regra, a composição nutricional é a seguinte: 36 a 52% de proteína, 5 a 20% de gordura, 30 a 40% de fibra alimentar.


No que diz respeito à gordura, a sua composição é, na sua grande maioria, ácido oleico e linoleico (gordura presente no azeite), constituindo 86% da gordura total. Acresce que o tremoço possui três vezes mais fibra do que a aveia e o trigo e, dessa fibra, a sua grande maioria tem a capacidade de reter o colesterol LDL no intestino e facilitar a sua eliminação nas fezes. O teor em amido também é reduzido, o que explica o papel deste alimento no controlo do índice glicémico (teor de açúcar no sangue) e consequentemente, na redução da incidência da obesidade na população; também é um alimento indicado para quem sofre de problemas ósseos e reduz o apetite. Além disso, as suas propriedades emolientes, diuréticas e cicatrizantes favorecem a renovação das células.

Todavia, desde há cerca de três mil anos atrás, o tremoço tem igualmente outras aplicações: a farinha de tremoço é utilizada na produção de bolachas, pão, biscoitos, massas; alimentação para animais não-humanos; indústria farmacêutica; melhoramento dos solos (é denominado “adubo verde” pois evita a utilização de adubos convencionais e prepara os solos em particular para o cultivo do milho, melão e trigo), etc.

Em 2005, a produção mundial de tremoço foi de 1,2 milhões de toneladas (FAO, 2005), das quais Portugal produziu onze toneladas. O maior produtor mundial de tremoço, que se pode cultivar desde o fim do Outono até ao início de Verão, é a Austrália com cerca de 82% do total, seguida do Chile (6%), Federação Russa (3%), a Polónia (2%) e França (2%).

O grão seco é tóxico - contém a substância alcalóide lupanina que lhe confere um sabor amargo. Só depois de cozido e demolhado em água salgada se torna comestível e um aperitivo bastante apreciado no nosso país especialmente no Verão em cafés e esplanadas típicos, geralmente acompanhados por cerveja e apelidado “marisco dos pobres”. Os tremoços têm, em média, 1/6 das calorias, por peso em relação a outros aperitivos como amendoins ou batatas fritas. O único senão é o sal que lhe é acrescentado, mas isso pode ser corrigido lavando bem os tremoços ou demolhando-os.

São comummente consumidos como aperitivos também na América Latina e outros países da Bacia do Mediterrâneo para além de Portugal, onde em 2009 se realizou a VI Feira do Tremoço em Cadima, freguesia pertencente a Cantanhede. Desde 1980 existe a International Lupin Association, fundada no Peru e dedicada a representar o interesse biológico e agrícola desta leguminosa.

Para os vegetarianos, o tremoço apresenta-se como mais uma leguminosa de opção, aumentado o leque de escolha dos fornecedores de proteína de alto valor biológico na dieta humana.

Em casa podem preparar-se da seguinte forma: comprar os “feijões” de tremoço secos (em mercearias tradicionais, como por exemplo na Casa Chinesa situada na Baixa da cidade do Porto) e colocá-los de molho em água de um dia para o outro. Depois fervem-se numa nova água durante vinte minutos. Arrefecendo, colocam-se num alguidar em água limpa que deve ser mudada duas a três vezes por dia durante cinco ou mais dias. Quando já não estiverem amargos podem ser conservados durante bastante tempo (no frigorífico) em água temperada com sal regularmente renovada e, opcionalmente, adicionando-lhes alho e/ou ervas aromáticas tais como orégãos ou louro.

Fonte: Centro Vegetariano



Tabela Nutricional

Tremoço

Quantidade100 gramas
Água (%)9,7
Calorias (Kcal)381
Proteína (g)33,6
Carboidrato (g)43,8
Fibra Alimentar (g)32,3
Colesterol (mg)n/a
Lipídios (g)10,3
Ácido Graxo Saturado (g)1,2
Ácido Graxo Mono insaturado (g)5,4
Ácido Graxo Poli insaturado (g)1,7
Cálcio (mg)*
Fósforo (mg)*
Ferro (mg)*
Potássio (mg)*
Sódio (mg)*
Vitamina B1 (mg)0,24
Vitamina b2 (mg)traços
Vitamina B6 (mg)0,07
Vitamina B3 (mg)traços
Vitamina C (mg)25

Dicionário dos Alimentos - ROMÃ

A chegada da romã é um acontecimento que marca indubitavelmente a passagem da época estival para o Outono. Sob várias perspectivas, este é um fruto verdadeiramente especial: a romã tem história, beleza e grande traz muita saúde.

A romã tem história. Para os iranianos, Eva foi traída não por uma maçã mas sim por uma romã. Um pouco mais a norte, o seu número excessivo de sementes e cor fazem com que os gregos ainda hoje mantenham a tradição de abrir uma romã nos casamentos para atrair a fertilidade.

A romã tem beleza. É uma preciosidade da natureza a envolvência de numerosas sementes carnudas de cor vermelha numa casca com epílogo em forma de coroa.

A romã tem saúde. É muito provavelmente o fruto com maior potencial “medicinal” comprovado. Neste contexto, o seu elevado teor em polifenóis impede o “mau” colesterol (LDL) de ser oxidado, sendo que é esta oxidação a responsável pela formação das placas ateroscleróticas que podem causar trombos indesejáveis. Esta capacidade de “limpeza” dos vasos sanguíneos demonstrou igualmente efeitos na melhoria da quantidade de oxigénio captada pelo músculo cardíaco de pacientes com doença coronária e também um potencial benefício no combate à disfunção eréctil.

A sua tremenda capacidade antioxidante (quase 3 vezes superior à do vinho tinto e chá verde) tem revelado resultados promissores quer na prevenção de alguns cancros (próstata e mama) quer na diminuição da inflamação característica da artrite e consequente atenuação da sua sintomatologia.

Foi relatado em alguns estudos uma interacção entre a romã (mais propriamente o sumo de romã) e alguns anticoagulantes. Apesar de muito remota e da escassa evidência desta associação, o mais recomendável é consultar o seu médico se estiver a tomar este tipo de medicação, antes de ingerir este precioso fruto.

As características nutricionais da romã são concordantes com o seu potencial terapêutico, dado que para além da sua riqueza em vitaminas e minerais e baixo valor calórico, algo que é inerente à grande maioria dos frutos, a romã exibe uma quantidade assinalável de fibra que a distingue dos seus similares.

Deste modo, aproveite esta dádiva da natureza nestes meses e entre no Outono da melhor forma!

Por Pedro Carvalho, nutricionista
Professor Assistente Convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto

Dicionário dos Alimentos - MAÇÃ

Ainda hoje se coloca a dúvida se a maçã foi de facto, o fruto proibido. Mas de uma coisa temos a certeza: a maçã é inimiga de alguns tipos de cancro, doença cardiovascular, asma e diabetes, uma vez que reduz o risco de todas estas patologias.

Já no século XIX, muito antes de existirem tabelas de composição nutricional de alimentos, era célebre o ditado “an apple a day, keeps the doctor away”. A maçã consegue o feito de desafiar as “leis da gravidade” que ajudou a construir, ao ser extremamente rica em compostos antioxidantes mesmo sem possuir as cores tão exóticas de outros frutos muito associados (e geralmente bem) a esta capacidade de defesa do nosso organismo. Aliás é mesmo a parda maçã reineta, desprovida de todo aquele verde e vermelho vivo, que exibe um padrão mais interessante na conjugação de fibra, vitamina C e actividade antioxidante entre todas as variedades de maçã. E existe ainda uma vantagem adicional da maçã em relação a alguns destes frutos exóticos: é muito nossa! Nenhum outro fruto fresco em Portugal se pode orgulhar de ostentar cinco zonas com Denominação de Origem Protegida ou Indicação Geográfica Protegida. Apesar de a nível mediático, a maçã de Alcobaça ser a porta-estandarte da maçã portuguesa, também as da Beira Alta, Cova da Beira, Portalegre e Bravo de Esmolfe possuem a sua qualidade reconhecida e protegida.

Quiçá pela sua intrínseca ligação bíblica, a maçã transporta consigo o dom da multiplicação no que a alguns nutrimentos diz respeito. Mesmo não sendo particularmente rica em vitamina C (7mg por 100g), a sua actividade antioxidante é equivalente a 1500mg desta vitamina, resultado das sinergias efetuadas pelos seus inúmeros compostos fenólicos e flavonóides. A maior concentração destes compostos na casca da maçã faz com que a actividade antioxidante desta, seja cinco vezes superior à da polpa. Daí ser quase um crime nutricional a ingestão de maçãs sem casca até porque, com a produção integrada e livre de pesticidas, a maior desculpa para quem a retirava deixa de ser válida.

Também de fibras solúveis se escreve a história nutricional da maçã, sendo estas as responsáveis pela sua fama na diminuição dos níveis de colesterol e regulação do apetite.

A maçã constitui-se assim como uma boa amiga da nossa alimentação. Por mais que experimentemos novos e mais sofisticados alimentos, ela vai estar sempre lá. E ainda bem!

Por Pedro Carvalho, nutricionista
Professor Assistente Convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto

Dicionário dos Alimentos - FEIJÃO VERDE

Feijão VerdeO Feijão Verde pertence à mesma família dos feijões de casca, como o feijão manteiga, feijão branco ou feijão preto. Mas ao contrário dos seus primos, todo o conteúdo, da vagem à semente, pode ser consumido. O feijão verde apresenta uma grande gama de dimensões, mas normalmente mede cerca de 10 cm de comprimento. Normalmente, tem uma bonita cor verde esmeralda, com um registo cromático mais claro em cada ponta. Contendo no interior da casca pequenas sementes de casca fina, esta variedade de feijão conheceu grande reputação devido à frescura, sabor e doçura da própria casca.

O nome científico do feijão verde é Phaseolus Vulgaris.

Tabela Nutricional

125 GRS / 43.80 CALORIAS                

NUTRIENTES
QUANT.
DDR (%)
DENSIDADE DO NUTRIENTE
CLASS.
VITAMINA K
20.00 mcg
25.0
10.3
excelente
VITAMINA C
12.13 mg
20.2
8.3
excelente
MANGANÉSIO
0.37 mg
18.5
7.6
excelente
VITAMINA A
832.50 IU
16.6
6.9
muito bom
FIBRAS
4.00 g
16.0
6.6
muito bom
POTÁSSIO
373.75 mg
10.7
4.4
muito bom
FOLATOS
41.63 mcg
10.4
4.3
muito bom
TRIPTOFANOS
0.03 g
9.4
3.9
muito bom
FERRO
1.60 mg
8.9
3.7
muito bom
MAGNÉSIO
31.25 mg
7.8
3.2
bom
VITAMINA B2 (RIBOFLAVINA)
0.12 mg
7.1
2.9
bom
COBRE
0.13 mg
6.5
2.7
bom
VITAMINA B1 (TIAMINA)
0.09 mg
6.0
2.5
bom
CÁLCIO
57.50 mg
5.8
2.4
bom
FÓSFORO
48.75 mg
4.9
2.0
bom
PROTEÍNAS
2.36 g
4.7
1.9
bom
ÁCIDOS GORDOS (OMEGA 3)
0.11 g
4.6
1.9
bom
VITAMINA B3 (NIACINA)
0.77 mg
3.9
1.6
bom



Benefícios para a saúde:
● Diurético
● Tonifica o Coração
● Hipogliceminate

Dicionário dos Alimentos - FEIJÃO

Um dia perguntaram ao intelectual italiano Umberto Eco qual tinha sido para ele o facto mais importante do 2º milénio. Provavelmente o leitor poderá achar que está o ler o texto errado e a perguntar-se o que é que isto tem a ver com o feijão. Pois bem, a resposta de Umberto Eco a esta pergunta foi: “a introdução do feijão na Europa”! E de facto, o feijão juntamente com outras leguminosas como a fava, lentilha e grão tiveram em tempos um papel crucial no combate à desnutrição que se abatia em toda a Europa.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e hoje, é muito provável que a razão pela qual exista um certo preconceito em relação ao feijão, seja essa lembrança de outros tempos com menos recursos em que o feijão foi utilizado como substituto da carne e do peixe. E este preconceito pode-nos sair caro quer no que diz respeito à nossa saúde, quer na manutenção da nossa identidade gastronómica que é algo do qual nos devemos orgulhar e não envergonhar. Com efeito, a feijoada é considerada muitas vezes um prato excessivamente pesado… e ainda bem! Muito do que por vezes entendemos como “pesado” refere-se à capacidade saciante do alimento em causa, e a este nível ninguém bate o feijão. A única maneira de tornarmos uma feijoada pesada em termos nutricionais é a adição de carnes demasiado gordas e enchidos que esses sim, desequilibram um prato que pode traduzir igualmente uma simbiose empírica entre arroz e feijão na procura da complementaridade proteica dos seus constituintes.

O feijão, à semelhança de outras leguminosas desempenha um papel fundamental no controlo do apetite pois para além de ser pouco calórico (cerca de 100kcal por 100gramas) tem uma grande quantidade de proteína e fibra. E são estas mesmas fibras que juntamente com outros fitoquímicos como o ácido fítico, flavonoides e compostos fenólicos, fazem do feijão um super-alimento na temática da prevenção do cancro. Sendo certo que o ácido fítico é responsável pela diminuição da absorção do ferro e cálcio, ele compensa essa menos-valia com uma grande capacidade antioxidante e antimutagénica que em conjunto com a produção de ácidos gordos de cadeia curta resultantes da fermentação da fibra do feijão diminuem o risco de cancro, particularmente o colo-rectal.

Assim, na sopa, na salada, em feijoadas à portuguesa ou brasileira, com marisco, lulas ou búzios, a ingestão de feijão é uma questão de saúde. É difícil encontrar algo que o feijão não tenha. Tem proteínas de elevada qualidade para um alimento de origem vegetal, tem hidratos de carbono de absorção lenta, tem grande quantidade de fibra promotora da saciedade, tem um vasto portfólio micronutricional com ferro, cálcio, zinco, ácido fólico e outras vitaminas do grupo B. Enfim, é daqueles alimentos que justificam o uso do cliché: O feijão tem tudo… Só não tem comparação!

Por Pedro Carvalho, nutricionista
Professor Assistente Convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto